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AMOR

... João começa a escutar uma súplica feita por Felipe e no ambiente da prece, ouve uma voz suave, de dignidade angélica, dizer:

João, o que viste, na verdade, não corresponde ao que é. A verdade não pode aparecer de uma vez, porque ela é um Sol que pode ofuscar a vista ou até tirar-te a visão. Cada luminar desses que observaste, empenhado em trabalhar sob as bênçãos de Jesus Cristo, tem um grande rebanho ao seu comando. E a voz do Mestre ecoa de infinito a infinito, no reino da Terra e dos céus. Deus assim o quer e nós todos o seguimos por Amor à grande causa do Pai Celestial: difundir a Boa Nova na Terra...

            João esforça-se para limpar os olhos, que não obedecem ao dono e as lágrimas molham seu manto. O silêncio dava a entender que todos os discípulos esperavam por João, assim como o Cristo. E o discípulo do Amor levanta-se com delicadeza e pede desculpas, voltando-se com profunda humildade para Jesus, de modo que o Mestre entendesse suas emoções, pedindo com meiguice:

            Mestre, perdoa as minhas fraquezas emotivas, mas gostaria de aproveitar a oportunidade para que o Senhor nos ajudasse a entender a virtude de maior amplitude que conhecemos. Faze o favor de explicar-nos o que é o Amor.

            O Nazareno, ereto e tranquilo, no toco de cedro que lhe servia de banco, ajustou o manto de maneira delicada e falou com sabedoria:

            João, meu filho! Lembras-te do Amor, que faz lembrar de Deus, na sua glória. O Amor é a irradiação mais pura que poderemos perceber e é ele que sustenta a vida em todos os seus ângulos, todos os dons nas suas particularidades, todas as filosofias nos seus conceitos, todas as religiões na arte de educar, todas as ciências nos estímulos de curar os enfermos, enfim toda a vida na profusão infinita. Se não houver Amor, a pessoa vive sem existir, é uma peça na forma. Sem Amor desaparece a verdadeira vida. O Amor é o único nome que pode substituir Deus.

            João parecia que não estava na Terra, chegava à beira da felicidade. Aquela noite, para os discípulos, era noite de festa espiritual, pois estava findando a fase dos mais emocionantes convívios com o Mestre na igreja dos pescadores, na cidade de Betsaida. Iria ficar indelével nos corações de todos os discípulos.

            Judas Iscariotes olha constantemente para o toco em que Jesus sentara e via faiscar o nome gravado na madeira espiritualmente: Ave Luz! Aquilo tranquilizava seu estado psíquico meio agitado.

            Jesus prossegue destilando magnetismo no seu mais alto teor. João olhava para a boca do Mestre e via que de seus lábios partiam chamas de luzes de todos os cambiantes. Seus lindos dentes davam a entender que eram estrelas juntas, os seus cabelos pareciam raios de sol. O Mestre retomou a palavra de modo agradável.

            João! Quando me refiro a um de vós, estou falando com todos e quando falo com todos divido os assuntos particularmente para cada um. Nós não temos tempo a perder no aprendizado do Amor. Tudo aquilo em que nos esforçamos para a concretização do bem é algo de Amor projetado no próximo e, se nasceu dentro de nós, ilumina-nos primeiro. O Amor, meus filhos, não precisa de nenhuma das virtudes para que possa viver, mas todas as outras carecem do Amor, porque sem ele, elas morrem. O Amor esclarece o perdão; o Amor firma a dignidade; o Amor enriquece os dons espirituais; o Amor eleva as ideias; o Amor espiritualiza a alegria; o Amor coordena as emoções; o Amor valoriza a razão; o Amor traz o respeito aos gestos; o Amor burila a fala; o Amor sintetiza os conhecimentos; o Amor é o selecionador dos ouvidos; o Amor sustenta a benevolência. O Amor dá vida na vida de Deus. O Amor reuniu a vós e a mim para o grande programa da caridade na Terra e, se for preciso, daremos os corpos que nos forem pedidos, para que o Amor fique com os homens.

            Silencia por instantes e continua:

            Meus filhos! Eu sou a ave e vós as avesitas. Recebereis de mim todo o calor para viver enquanto pequeninos. Ao crescerdes, devereis andar por conta própria. Todavia, jamais vos perderei de vista, eu e os anjos que nos servem. Estou para ir e dar grandes testemunhos, em qualquer lugar, pois servir para que Deus cresça nos homens é a minha meta. Todos vós estais vos preparando como ovelhas que deverão seguir para o sacrifício, mas mesmo depois de passardes pelas lâminas afiadas dos carrascos, vossas peles servirão para aquecer os que sofrem frio no seio dos que gastam e desperdiçam as coisas sagradas da vida. Isto vós deveis fazer por Amor a Deus e ao próximo, por Amor a vós mesmos e por Amor a tudo o que existe.

            Finalizando, acrescenta:

            Estou na Terra, por Amor aos homens. E qualquer martírio que eu venha a sofrer, será por Amor a eles. Esse Amor que tenho a todas as criaturas é o Amor de Deus que passa por mim, por achar sintonia em meu coração.

            Todos se levantam apressadamente. Jesus se ergue e procura sair da igreja, onde a multidão o esperava. Ele, alegre, toca vários doentes, curando-os. Pedro avança daqui, avança dali, abrindo caminho para o Mestre e pedindo ao povo para ir embora, pois a madrugada era alta. Porém, os enfermos não escutavam a ninguém, procuravam pelo menos tocar as vestes de Jesus. Duas moças leprosas se jogam no caminho do Mestre e Este abaixa-se com compaixão e as abençoa, restabelecendo seus corpos em chagas. Um velho cego pede a Cristo que tivesse piedade dele, que não podia ver. O Mestre toca de leve os dedos em seus olhos e o ancião vê, claramente. Todos avançam a beijar os pés do Cristo, mas não conseguem, por causa da multidão. Eis que, somente naquela noite, foram curadas mais de trinta pessoas com doenças incuráveis na época...

Livro “Ave Luz” – João Nunes Maia – Espírito Shaolin