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HOMENAGEM

            Revejo-a, embora os anos que se dobraram, risonha e jovem, debruçada sobre a cama da ternura em que sua abnegação me embalava, cantarolando velhas baladas...

            Ave implume, não conhecera o valor da mulher em cujo seio eu me agasalhara, sedenta de renovação, ao recomeçar a experiência carnal...

            Você, no entanto, lá estava, no lugar dela, mãe da carne que não era a sua, a dar-se totalmente com os olhos fulgurantes quais estrelas no infinito da sua face recamada de amor.

            Em suas mãos cheias de calos do labor rude encontrei as moedas de carinho e a festa da vida ao alcance dos meus passos.

            Suas lágrimas, suas dores, não me recordo delas. Você as escondeu, deixando para mim somente o festival do seu sorriso cândido e a sinfonia da sua voz veludosa.

            Pela sua boca fluíram na direção dos meus ouvidos as pérolas das primeiras orações e as gemas dos sábios conselhos que seguirão sempre comigo.

            Você lutou e transferiu para mim os triunfos que não pode ou não desejou fruir.

            Tudo você fez para que o anjo da felicidade atapetasse o meu caminho de bênçãos e a musa da paz dourasse o céu dos meus dias com as nuvens leves da serenidade.

            Enquanto eu estuava, vigorosa e confiante, seu corpo, antes robusto, definhava, seus cabelos esmaeciam... e um dia deslumbrei-me com a coroa de neve a lhe embelezar a cabeça altiva e estóica... Depois você partiu.

* * *

... Hoje, mulher e mãe, eu agasalho junto ao seio um anjo corporificado no meu filhinho e, colocando-o no leito de amor que lhe preparei, revejo o seu rosto, fitando-me, sorrindo, passado tanto tempo...

O lar é, verdadeiramente, a madre da Humanidade. E o mundo majestoso tem começo sem dúvida no coração da mulher que se converte em mãe.

A Alva denuncia o dia e a maternidade em clarinadas de amor canta a música sublime da Humanidade.

Desse modo, como esquecer o que você, humilde e apagada para o mundo, sofredora e combatida em mil circunstâncias, significa ainda hoje para mim?!...

Você continua sendo o sorriso da minha esperança e o lume da minha noite quando a dor me visita.

O amor que dedico a Jesus, o Sol dos nossos dias e noites, recebi-o através do seu amor.

Nunca a olvidei!

Em nome dEle, o Filho excelente, no Dia das Mães, quando todo levam as flores da gratidão à genitora, peço-lhe permissão para dizer com a alma em prece e o coração cantando saudades:

Deus a guarde no seu Reino, mamãe, celeste mensageira que me tomou dos braços do abandono para me alçar à glória da vida!

Amélia Rodrigues

Fonte: livro “Crestomatia da Imortalidade – Divaldo Franco