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De onde nasce a nossa infelicidade? Rubem Alves, que foi escritor, teólogo e psicanalista, afirma que a nossa infelicidade nasce da inveja. Vale a pena acompanhar a sua explicação:

Comparo-me com uma outra pessoa. Vejo as coisas boas que ela tem ou é. Dou-me conta de que nem sou o que ela é, nem tenho o que ela tem. Aí, olhando para mim mesmo, sinto-me pequeno, empobrecido, feio. E esse olhar, envenenado pela inveja, destrói as coisas boas que sou e tenho. O olhar invejoso está sempre colocado na riqueza do outro que, por meio de comparação, se transforma na minha pobreza. Ele é rico e bonito: eu sou pobre e feio. Aí o seu amor por você se transforma num amor triste. Sobre, então a alternativa medíocre de que você lança mão: já que não posso ser objeto de amor pela minha exuberância, ofereço-me à piedade dos outros pela minha miséria. Pelo menos que os outros tenham pena de mim. (A Grande Arte de Ser Feliz, Planeta)

Com essas reflexões, podemos aprender duas coisas importantes:

A infelicidade nasce da inveja. E a inveja nasce de uma comparação. Você já percebeu que, nas vezes em que nos comparamos a outra pessoa, sempre saímos por baixo? Nossa comparação tende a ser depreciativa para nós. Quase sempre, concluímos que temos menos ou que somos menos do que a pessoa comparada. Raramente observamos que somos ou temos algo que o outro não é ou não tem. Mas nosso olhar vai buscar no outro o que falta em nós. Esse é um olhar infeliz, porque o olhar da inveja é míope, fora de foco, e, portanto, não consegue enxergar corretamente a realidade.

Eu lembro que Jesus disse para que tivéssemos olhos bons (Mateus 6,22-23). O Bom olhar traz luz para nossa vida. O mau olhar traz trevas ao coração, faz com que nos sintamos pequenos, empobrecidos, adoentados, vítimas do mundo. E, assim, nos tornamos infelizes, quando, na verdade, não o somos. Apenas nos sentimos assim por força de um olhar distorcido. SE a comparação for inevitável, podemos olhar para as coisas boas que o outro tem ou é, sem jamais perder de vista as nossas vantagens e qualidades.

Uma palavra de que a felicidade gosta muito é gratidão. Se a inveja é uma desgraça, a gratidão é uma graça. Seja grato pelas coisas que você tem e pelas vitórias já conquistadas! Conte, uma a uma, as bênçãos já recebidas, e você verá quanta riqueza possui! E não se esqueça de contar as coisas que o dinheiro não pode comprar. A primeira sensação será a de que você não é um desafortunado. Pode não ter tudo o que deseja, mas felicidade não é ter tudo o que se quer, e, sim, começa quando se dá valor ao que se tem.

Tenha um amor bonito por você! Quando a inveja nos domina, nossa autoestima desmorona. Disse o Rubem que o amor por nós fica triste. Não conseguimos enxergar nossa beleza, nossos recursos, capacidades e aqueles aspectos peculiares, que marcam cada um de nós. Aquele jeito que é só nosso e que nos distingue de todas as demais pessoas do mundo. Quando perdemos o bom olhar para nós mesmos, caímos no poço da infelicidade.

Se você não enxerga o que tem de bom dentro e fora de si, quando você só tem olhos para enxergar a riqueza dos outros e não vê a exuberância dos recursos que Deus lhe concedeu, a tendência é mostrar para o mundo o quanto você é miserável, sem sorte, abandonado por Deus, azarado, perseguido... Quem sabe alguém lhe dê alguns trocados de piedade, não? Mas isso somente aumenta o nosso desgosto. Porque Deus não nos criou para vivermos da exposição das nossas feridas. Ele nos criou para sermos amados pela exuberância dos nossos talentos. Deus nos criou para sermos heróis, e não coitadinhos sobrevivendo da piedade alheia!

Resgate esse amor bonito por você não aceite mais viver como coitadinho, pois isso não corresponde ao que, de fato, você é. Para de colocar defeitos em si mesmo e comece a enxergar seus pontos fortes. Pare de arrumar problemas e comece a encontrar soluções. Pare de encrencar e comece a facilitar. Pare de ser seu inimigo! E preste muita atenção nessas palavras de Inácio Larrañaga (A Arte de Ser Feliz, Paulinas):

Chega de sofrimento, meu irmão, é hora de despertar, de enterrar a tocha da ira, de olhar para você mesmo com benevolência e tornar-se o amigo mais amigo de você diante de tudo e sobretudo. Ao longo de seus dias, você cingiu sua cintura com o cinturão da hostilidade e sua cabeça com uma coroa de espinhos.

Chega de martírios. Como a mãe que cuida de maneira especial do filho mais desvalido, você amará sua pessoa justamente naquilo e pelo que ela possui de mais frágil, envolvendo-a em um abraço de ternura.

Seja o melhor amigo de si mesmo, seja feliz, porque somam uma legião os que esperam participar de usa luz e de seu calor, os que esperam avivar seu fogo na chama de sua alegria.

 

Extraído do livro “Feliz – A felicidade pronta para entrar em nossa vida”, cap. 18 ”O amigo mais amigo de você” (título original), autor José Carlos De Lucca – grifos nossos