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Eu sempre acreditei que a felicidade era algo que vinha de fora para dentro. Algum grande acontecimento que passava por nós de vez em quando, nos deixava felizes por uns breves instantes, e, depois, nossa vida voltava ao normal, à espera de um novo acontecimento. E, até que isso acontecesse novamente, a vida seguia sem graça, sem prazer, apenas cumprindo as obrigações, à espera de que o cometa de um novo e grande acontecimento passasse novamente por minha vida e deixasse rastros de felicidade.

Para mim, a felicidade era determinada pelas circunstâncias da vida. Eu acreditava naquele ditado que apregoa que “a felicidade não existe – o que existe apenas são momentos felizes”. Eu vivia à espera desses momentos felizes, que eram aqueles em que algo de extraordinário ocorreria, geralmente quando tudo dava certo para mim. E, quando a via voltava à sua normalidade, o encanto desaparecia e a felicidade, também.

Eu vivi assim por muitos anos, mas, aos poucos, fui me dando conta de que deveria haver algo errado comigo. Eu não era feliz. Não era possível acreditar que Deus, o supremo bem e a suprema felicidade, fosse permitir que seus filhos fossem felizes apenas algumas poucas vezes por ano. Engraçado que, mesmo tendo passado por algumas experiências muito positivas, eu tinha uma incapacidade de ficar alegre quando essas experiências aconteciam, pois minha mente sempre me levava à próxima etapa que eu desejava atingir.

A sensação era a de que eu não havia feito nada de mais, que apenas cumprira as minhas obrigações. E que era preciso avançar para alcançar novas metas, enfim, ser aquele “grande homem” que meus pais e professores diziam que eu deveria ser.

Hoje, eu sei que a intenção deles foi a melhor possível, e não nego o quanto progredi na vida, graças ao estímulo que recebi. No entanto, essa busca incansável pela perfeição me trouxe um efeito colateral: eu não comemorava minhas vitórias, tampouco dava atenção aos pequenos prazeres da vida. Creio, até, que fui muito mais infeliz pela desatenção às pequenas alegrias da vida do que por não comemorar as grandes vitórias, porque estas foram poucas, mas aquelas aconteciam todos os dias.

Tal constatação desabou sobre mim num dia em que eu estava a caminho de um jantar com a família. Havíamos escolhido um bom restaurante. Mas confesso que, de minha parte, eu não me sentia feliz. Na minha cabeça, nem havia razão para estar. Era só um jantar. Nada mais. Eu dirigia calado, irritado com o trânsito lento, pensando em outras coisas que deveria fazer no dia seguinte, mal conversava com a família e nem apreciava a boa música que tocava no carro.

A vida, porém, me reservava uma grande lição. O congestionamento me obrigou a ficar com o carro parado por alguns minutos, em frente a um bar de esquina. Era um estabelecimento muito simples, pequeno, mas apinhado de gente, dentro e fora. Um aparelho tocava música alta e as pessoas, em pé (porque não havia mesas e cadeiras), cantavam e dançavam no bar e na calçada. Era possível notar que elas estavam bem vestidas, com roupas que o ambiente nem merecia, mas era claro que elas haviam se vestido para uma noite de gala, pouco importando o ambiente simplório onde se encontravam.

Tive a certeza de que elas estavam felizes, se divertindo à beça, e que a felicidade delas não dependia das circunstâncias externas, mas de uma decisão que elas haviam tomado, de que seriam felizes naquele momento e naquele local. Elas entenderam o que eu custei muito a aprender: felicidade não é uma realidade objetiva, mas uma decisão subjetiva. Felicidade não é uma dádiva do céu, não é sorte para uns poucos, mas fruto de uma habilidade que todos nós podemos aprender. Aprender a ser feliz! E o primeiro passo para isso ocorre quando se toma a decisão de ser feliz. Afirma Marianne Williamson que “há sempre algo para se reclamar, mesmo nos melhores tempos. E há sempre algo a celebrar, mesmo nos piores tempos” (Graça Cotidiana, Rocco).

Confesso que não deixei de sentir uma inveja daquela gente! Eles estavam celebrando a felicidade num ambiente em que eu, certamente, estaria reclamando. Pior do que isso: nem mesmo num local que, para mim seria mais agradável, eu também não me sentiria feliz. Portanto, nada de fora me faria feliz, nem mesmo se eu estivesse no melhor restaurante do mundo! E foi percebendo que a minha infelicidade não era resultante de alguma circunstância externa. Eu não havia tomado a decisão de ser feliz onde eu estava e deixava de apreciar tudo aquilo que estava me acontecendo.

Eu fiquei triste com a minha infelicidade, mas, por outro lado, um leve sorriso de esperança brotou dentro de mim. A minha infelicidade poderia ser desaprendida! Escrevo isso de outro jeito: eu poderia aprender a ser feliz. E como fazer isso? Aprendi com Catherine Rambert: “a felicidade consiste em apreciar, prolongar e saber renovar as alegrias da vida” (Pequena Filosofia da Manhã, L&PM Editores).

Aqui estão os fundamentos de uma felicidade aprendida: saber apreciar, prolongar e renovas as alegrias da vida! Naquela noite, preso num congestionamento, eu cometia grandes pecado em relação à felicidade. Eu não sabia apreciar o momento que eu estava vivendo. Não me concentrava nele. Minha mente me jogava para um outro momento, onde a felicidade, por certo, não poderia estar. A felicidade estava lá, comigo, mas era preciso que eu enxergasse isso!

Vamos começar a prestar mais atenção nessas alegrias da vida! E elas estão nos mais simples episódios da existência. Não é preciso que se esteja comemorando algo importante, uma data, um acontecimento. O simples fato de estar vivo e participando da vida é o grande fato que exige celebração! A felicidade gosta de quem celebra a vida nos seus mais simples encantos, porque quem celebra tem olhos de gratidão, dá valor à vida, se encanta com ela e em tudo passa a ver uma razão para ser feliz.

Além de apreciar, saber prolongar. Fixar o momento na memória. Expandi-lo. Intensificá-lo. Como alguém que está saboreando lentamente um novo alimento, descobrindo e fixando os seus sabores. Uma mesa de refeição ensina muita coisa em matéria de felicidade. Ensina a degustar, saborear cada tipo de alimento. Quem não sabe comer não sabe ser feliz!

Quero, agora, fazer um brinde à sua vida! À sua capacidade de ser feliz e aprender também tudo isso que tenho aprendido e que me tem feito mais feliz. Brindar às coisas boas que já aconteceram em sua existência e àquelas que acontecem neste exato momento. Brindar porque hoje você saiu da cama, está respirando, está participando da vida, podendo modificar o que pode ser modificado com sua força e coragem e aceitando serenamente o que escapa das suas mãos. Brindar aos seus talentos, brindar ao dom que existem em você de ser capaz de ser feliz.

Tim-Tim!

 

Extraído do livro “Feliz – A felicidade pronta para entrar em nossa vida”, cap. 20, autor José Carlos De Lucca – grifos nossos