PERDÃO

 

Perdão, uma palavra simples, composta por 06 letras, porém de significado e amplitude imensos... Tão difícil de ser praticado, vivenciado, mas não impossível. Sua pronúncia, dita com o coração e vivenciada em Espírito, pode significar o ganho de anos na vida presente e séculos na vida futura, tanto para quem perdoa quanto para quem é perdoado. Mas, e para nós e para a Doutrina Espírita, qual o seu verdadeiro significado? Primeiramente, vejamos seu significado na língua portuguesa e na sequência reflitamos sobre seu significado para nós da Doutrina Espírita.

Perdoar vem do latim perdonare, que significa “desculpar”, “absolver”, evitar”. No Dicionário Aurélio, encontramos seu significado como: remissão de pena; desculpa; indulto.

No Antigo Testamento já havia citações em que a Lei estabelecia um limite à vingança na aplicabilidade da “lei de talião”, como também proibia o ódio ao irmão, a vingança e o rancor contra o inimigo. No Novo Testamento Jesus completou esses pensamentos dizendo que Deus não poderia perdoar a quem não perdoa (Se perdoares aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai Celestial vos perdoará os pecados... Mateus, 6:14 e 15).1 Por isso reitera que a misericórdia não deve ter limites, que deveríamos perdoar não sete, mas setenta vezes sete vezes, ou seja, indefinidamente (Mateus, 18:15, 21 e 22).1 Na Doutrina Espírita, principalmente em O Evangelho Segundo o Espiritismo, encontramos diversas citações acerca do perdão das ofensas, abordaremos algumas um pouco mais adiante.


É primordial aprendermos que quando conseguimos desculpar o erro ou provocação de alguém contra nós, exoneramos o mal de qualquer compromisso para conosco, ao mesmo tempo em que nos desvencilhamos de todos os laços suscetíveis de aprisionar-nos a ele. Jesus vivenciou os princípios da caridade, nos ensinando que devemos perdoar os nossos inimigos e que não devemos retribuir o mal com o mal, mas sim com o bem.

 

O ponto principal a ser vivenciado é não guardarmos rancor no coração, de espécie alguma, pois a mágoa retida é doença para o espírito, que lhe corrói as forças físicas e envenena a alma. “O rancor emperra a vida como a ferrugem corrói o metal. O ódio contamina e, assim, transcende o odiado. Ter ódio por alguém ou por algo é odiar a própria vida”.2


Recebida uma ofensa temos duas soluções: a do mundo e a do Evangelho. A solução do mundo prende-se à superfície do problema, pois induz-nos a cometer um mal para reparar o mal que nos tenha sido feito. Isto acaba gerando um ciclo vicioso do mal que nunca terá fim, pois um mal estimula a cometer outro mal e assim sucessivamente. A solução evangélica é mais profunda, porque vai à essência do problema, da questão, porque estimula-nos a não revidar o mal com o mal, mas com o bem, ou seja, o perdão das ofensas. Se esquecermos de exigir justiça para o nosso caso particular, ele acabará pertencendo à Lei e ficaremos livres de qualquer dívida.3


Se usarmos o revide para com aqueles que nos atacam, entramos na mesma sintonia da agressão e respiramos o mesmo magnetismo toldado pelo ódio e pela vingança. Perdoar as ofensas e isolar-se dos fluidos inferiores projetados em nós, sem dúvida, é ter serenidade na consciência, pela confiança adquirida através das qualidades conquistadas; é ter certeza, na Lei Universal, de que somente recebemos o que damos. Quem perdoa, pratica a indulgência, e é o primeiro a ser beneficiado. O misericordioso é invadido pela paz. Os espíritos superiores têm uma serenidade imperturbável, fruto de um perdão incondicional e permanente.4


O esquecimento das ofensas é próprio das almas elevadas, que paira acima dos golpes que lhe possam desferir”.1 Podemos citar como exemplo de uma dessas almas elevadas Mahatma Ghandi, líder indiano da não-violência, que no fim de sua vida, respondeu à pergunta se perdoou todas as ofensas recebidas com uma declaração sincera: “Nada tenho que perdoar a ninguém, porque nunca ninguém me ofendeu”. A ofensa é objetiva, considerar-se ofendido ou não é subjetivo. Ghandi simplesmente não considerou a ofensa como ofensa. 5

 

O conceito de perdão, segundo o Espiritismo, é idêntico ao do Evangelho, que lhe é fundamento: concessão, indefinida, de oportunidades para que o ofensor se arrependa, o pecador se recomponha, o criminoso se libere do mal e se erga, redimido, para a ascensão luminosa.6


Em termos práticos, não resta dúvida de que Allan Kardec, no capítulo X de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Bem-aventurados os que são misericordiosos, retrata diversas maneiras de conceber o perdão das ofensas se realmente quisermos ser perdoados por Deus. É de se destacar que no item 6 do referido capítulo, encontramos a afirmativa de que Deus não consente que aquele que perdoou sofra qualquer vingança, mostrando que, ao perdoarmos, entramos em sintonia com o Pai.

 

Jesus, nosso amado Mestre, nosso guia e modelo pelo que Ele fez e vivenciou, deixou para todos os povos o exemplo de sua vida e nos legou como herança, o Evangelho. Amou incondicionalmente, até mesmo seus perseguidores, e esticado em uma cruz, perdoou seus ofensores, dizendo que eles não sabiam o que estavam fazendo. O perdão constitui uma força a favor do ofendido; a caridade é ambiente de tranquilidade para o doador, e o amor é uma luz renovadora para quem ama.

 

Caros irmãos, reflitamos sobre esses ensinamentos e pratiquemos também o auto perdão, pois se não conseguirmos vivenciar o perdoar a si mesmo como conseguiremos perdoar ao próximo?!

 

Recordemos e procuremos vivenciar o maior mandamento que Jesus nos ensinou, que, segundo Ele, resume toda a lei e os profetas: “Amar a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo”.

 

Muita paz, amor e luz em suas vidas.

 

Paulo Catanoze

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1. O Evangelho Segundo o Espiritismo – Cap. X

2. Paulo Pereira da Costa – autor do livro Pensando na Vida

3. Pietro Ubaldi – livro A Lei de Deus

4. Miramez – livro Horizontes da Mente

5. Rohden, H. livro Mahatma Gandhi – Ideias e Ideais de um Político Místico in Centro Espírita Ismael:  http://www.ceismael.com.br/artigo/perdao-e-reconciliacao.htm

6. Equipe da FEB – O Espiritismo de A a Z.